O Rock e outros almanaques

October 6th, 2008

Para começar o post dessa semana, eu queria pedir novamente encarecidas desculpas pela ausência. É que novamente a vida atropela alguns planos e o meu objetivo de fazer um texto rápido e rasteiro sobre um livro por semana acaba sendo soçobrado por outras necessidades mais prementes do meu dia. Novamente, não pretendo deixar o blogue desamparado e conto com a colaboração de Beta Lewis, Maria Bercovitch e Alessandra Tussi para alimentar eventualmente esse espaço com um ou outro texto sempre brilhante.

Bom, mea-culpa feita, passo à análise desse pequeno guia do Rock’n’roll: o Almanaque do Rock, de Kid Vinil.

Capa Almanaque do Rock, de Kid Vinil

Capa Almanaque do Rock, de Kid Vinil

Acompanho à distância a carreira de Kid Vinil desde os tempos do Magazine – lembram-se dos sucessos “Eu sou boy” e “Tic tic nervoso”? pois é! – e confesso que sempre fui simpático à sua figura. Mais conhecido e popular em São Paulo que no Rio de Janeiro, Kid Vinil teve um clássico programa de Rock’n’Roll na rádio Excelsior e capitaneou o Som Pop na TV Cultura. Tudo em Sampalândia, obviamente.

Do outro lado da obra, sempre adimirei o design dos “Almanaques” da Ediouro desde o dos Anos 80 que veio no timing certo da febre oitentista que teve o seu ápice em 2004-05. Marcelo Martinez, o dono do projeto gráfico dos Almanaques, acertou a mão nesse primeiro projeto que apresentava drops de curiosidades da “década perdida” com um visual descolado, descontraído e (falsamente) descuidado. Mas, o que funcionou perfeitamente no Almanaque dos Anos 80, desandou sobremaneira no Almanaque do Rock.

Acho que nenhum connaisseur de Rock’n’Roll nacional discorda que Kid Vinil é um dos nossos maiores especialistas nesse gênero e, talvez por isso, a superficialidade das informações ali apresentadas fica deixando a desejar. Por exemplo, quando o livro passa pela fase do psicodelismo e do rock progressivo, fica clara a lacuna de nomes, datas, discos e eventos. Parece que a intenção é de deixar apenas drops de informação mesmo, sem se aprofundar em momento algum em nenhum gênero ou década. Talvez funcione para uma geração que considere Nirvana uma banda “clássica” e que quer ter um norte qualquer para ir mais a fundo na história da música que não quer envelhecer, mas para quem sabe o potencial que um livro desses oferece, o resultado é bem frustrante.

Quanto ao aspecto gráfico a coisa fica mais grave. Se, no Almanaque dos Anos 80, aquele jeito casual de misturar tamanhos de tipologia, imagens e blocos de texto dava leveza a uma coletânea de irrelevâncias, no Almanaque do Rock dá a impressão de aleatoriedade. Por vezes, comecei a leitura de um parágrafo destacado achando que seria uma curiosidade ou um “plus a mais” do texto que estava seguindo quando descubro que é apenas a continuação do mesmo. Em suma, a experiência do livro acaba sendo comprometida.

De mais a mais, a simples existência do Almanaque do Rock é um bom sinal. Sinal que as editoras estão prestando mais a atenção em um nicho de leitores que querem saber mais sobre a trilha sonora que escutam diariamente e talvez atenda aos guris que ainda não aprenderam a pesquisar os históricos das bandas nas wikipedias e last.fm da vida.

As Lorotas da Cobra Gabi - Gonzalo Cárcamo

September 5th, 2008

Este livro vem me acompanhando há algum tempo como presente nas festas infantis. Conta a história de uma cobra meio maluquinha (a Gabi) que depois de cair em um balde de pinga começa a agir estranhamente… O livro é uma ótima introdução dos pequenos à nossa fauna e flora. Que, ao meu ver, é o grande diferencial, pois ao invés de histórias sobre ursos e animais que não encontramos por aqui, os personagens são uma cobra, uma capivara, um sapo e outros tantos que com alguma sorte (ou azar!) podemos topar nas nossas matas. Isto com certeza é o que me chama mais atenção e me faz comprá-lo mais de uma vez para dar de presente. =) Já para os adultos, as aquarelas sempre lindas presentes em todos os livros do Cárcamo com certeza irão encantar, tendo ou não filhos.

Pela história, pelas lindas aquarelas e pela brilhante idéia de usar animais da nossa terrinha,

Cinco estrelinhas!

PS. Para quem quiser conferir mais trabalhos deste autor, visite aqui. ;)

O castelo branco, de Orhan Pamuk

August 30th, 2008

O Castelo BrancoGanhei este livro no sábado passado! Não resisti e o aninhei em meus braços. De onde ele só saiu depois de proferir o último caracter: ponto. E pronto, me emocionei…. Magnífico seria pouco para descrevê-lo… Amo a maneira como Orhan Pamuk[bb] escreve! Seu estilo me lembra muito o do escritor italiano Ítalo Calvino, que adoro. Há muitas coisas nas entrelinhas desse livro, que me fizeram amá-lo ainda mais. E um questionamento que ecoa o tempo todo: o que faz as pessoas serem como são? Contarei tudo na resenha e nos comentários abaixo. Deleitem-se!

Resenha: O castelo Branco é o romance de estréia de Orhan Pamuk[bb] no Brasil. A história se passa em pleno século XVII, num mundo de sabedoria e barbárie. E é neste cenário que um italiano viaja tranqüilamente de Veneza para Nápoles, até seu navio ser capturado por piratas turcos. Devido aos seus conhecimentos, ele escapa de ser morto pelos turcos, porém, acaba sendo comprado como escravo por um paxá, que o dá de presente para Hoja, um estudioso turco conhecido como o Mestre. Quando Hoja e o escravo se encontram, há um choque inicial: os dois homens são tão parecidos entre si que chegam a se confundir. Sem nunca abandonar a esperança de voltar para a Itália, o veneziano ensina para Hoja tudo o que aprendera no seu país. A intrincada tapeçaria da trajetória dos dois, de obscuros curiosos de província a conselheiros diretos do sultão da Turquia, encobre um estudo delicado e complexo das relações entre a Europa e a Turquia. Mas a principal investigação de Pamuk nesta narrativa fluida e criativa é sobre a questão ancestral que perturba Hoja e ecoa em todos nós: o que, afinal, forma a nossa identidade e define quem somos?

Minhas impressões sobre o livro
Enquanto lemos O Castelo Branco é possível fazer uma comparação entre o caráter do ser humano no século XVII e hoje, notando que pouca coisa mudou. Este livro é na verdade uma fábula entre diferentes culturas e a essência humana, com todos os seus dramas, inseguranças, defeitos e pontos positivos. Mostra que todos nós somos um pouco contraditórios e que o ser humano que é capaz de cometer as piores barbáries, também pode ser responsável pelos mais belos atos de compaixão. Me apaixonei pela maneira de escrever de Pamuk desde que li o livro “Neve” e me identifiquei - em alguns pontos - com o protagonista, o poeta Ka (um trocadilho com “Kars”, nome da cidade na Turquia onde a história se passa). Seus personagens quase sempre são nostálgicos e solitários e os diálogos são magníficos, principalmente para quem adora a cultura turca. Cultura pela qual passei a me interessar desde que comecei a fazer dança do ventre (no ano de 2000). Mas Orhan Pamuk[bb] vai muito além… Escreve sobre as relações humanas, sobre o amor, sobre os sentimentos que aprisionamos, sobre a liberdade… E uma escrita primorosa e com um estilo todo próprio.

Veja algumas passagens magníficas deste livro:

Muitos acreditam que nenhum destino é determinado com antecedência, e que todas as histórias pessoais são essencialmente uma cadeia de coincidências. E, no entanto, mesmo os que assim pensam, muitas vezes chegam à conclusão, quando olham para trás, que acontecimentos vistos no passado como produto do acaso eram, na realidade, inevitáveis. Ele se fora para Veneza em meu lugar, casara com a minha noiva, e durante as festas ninguém descobrira que ele não era eu.

Estava com medo de fazer papel ridículo, e até perguntou, de brincadeira: se escrevermos juntos, não poderemos, também, contemplar-nos juntos no mesmo espelho?

Uma pessoa deve amar a vida que escolheu o bastante para chamá-la sua até o fim.

-> Prévia e originalmente escrito em Justale Resenhas de Livros: http://www.justale.com.br/livros

Spiderwick - Toni DiTerlizzi e Holly Black

August 19th, 2008

Recentemente vi o filme Spiderwick[bb]. E o livro de hoje, não é só um livro, mas toda série.

(livro Spiderwick) [bb]

A edição é primorosa, com capa dura em alto-relevo, páginas encardenadas desencontradamente simulando um manuscrito (que, já ouvi dizer, rederam algumas confusões na editora de clientes dizendo que o livro estava com defeito), lindos desenhos preto-e-branco a bico de pena de Toni DiTerlizzi[bb], mas… o texto de Holly Black deixa a desejar. Ela parece pegar uma onda em toda essa moda de fantasia e fazer uma colagem de tudo de legal que ela já viu, com poucos bons insights próprios, como o monóculo para ver criaturas encantadas. Comprei o primeiro pelo conjunto da obra, comprei os outros pelos desenhos - e porque ficam lindos na estante.

Então a crítica de hoje vai além do livro, quando assisti o filme[bb], vi que faz jus à série. Efeitos especiais bem feitos, um elenco infantil muito bom, mas a história…

Três estrelinhas…

Neil Gaiman - The Dangerous Alphabet

August 13th, 2008

Plagiando o Zander em “Um Livro Por Semana”, pensei em comentar um livro ilustrado por semana, e o dia escolhido é o domingo, porque sim.

Então hoje, seguindo a linha “Neil Gaiman[bb]” que estou desde a FLIP, vou comentar The Dangerous Alphabet[bb], com texto do mesmo e ilustrado por Gris Grimly[bb].
***
(livros Neil Gaiman) [bb]
***
V é para Você precisa comprar. Este é um livro que todos que gostam de desenhos precisam ter. Não se engane pelo pouco texto, O Alfabeto Perigoso[bb]* é para adultos e principalmente, crianças. Acho que acertaram em cheio ao deixar o Dave McKean[bb] de lado desta vez e optar por Gris Grimly[bb]. McKean[bb] não acertaria na medida como Gris[bb] acertou ao desenhar uma atmosfera em um esgoto, com crianças aprisionadas por trolls e outras criaturas sinistras, andando com correntes ensangüentadas e claro - um herói, sem causar traumas e pesadelos nas crianças que vão ler. É tudo leve na medida certa, com um fundo manchado e um traço primoroso. Uma coisa que sempre costumo dizer é que gosto dos livros que não subestimam crianças, porque quando eu era criança eu era uma pequena traça e lembro de apelar aos livros dos meus pais porque achava os pra minha idade muito bobos. Bem, Neil Gaiman[bb] não fez isso em nenhum dos infantis dele, e Gris[bb] soube como fazer isso nas ilustrações com classe.

Cinco estrelinhas!

publicado originalmente em Cerejas, café e desenho

Eu ouviria as piores notícias dos seus lindos lábios - Marçal Aquino

August 12th, 2008

Era adolescente quando ouvi a minha professora de literatura falar de um autor chamado Rubem Fonseca[bb]. Ela era quase tão nova quanto nós, os alunos, e dizia empolgada que o Rubem Fonseca[bb] escrevia uns “contos muito fortes” deixando antever que havia violência, além de alguma sacanagem mais pesada. Pra mim bastou e lá fui eu conhecer esse autor de “contos fortes”. Viciei logo de cara. Nunca tinha lido nada parecido. Crimes, pornografia, solidão e violência na sua forma mais crua possível. Tudo isso junto e não consegui achar repugnante o que li. Pelo contrário, por ser tão cru, Rubem Fonseca[bb] atinge um grau de amoralidade que não nos leva a condenar os criminosos de seus escritos, mas nos torna comparsas da loucura de seus personagens que é perfeitamente afeita aos tempos atuais – afinal, não possuímos todos um lugarzinho escuro, bruto e inexplorado? Pois então, é nesse lugar que Rubem Fonseca[bb] toca. Talvez por já ter sido policial no Rio de Janeiro há tempo atrás, ele tenha tido a noção de que o crime e a perversão não são algo excepcional ao ser humano. Incomoda e é bom que o faça porque emociona e faz pensar.

Falei do Rubem[bb] porque me tornei fã deste estilo cru, masculino e amoral. E eu ainda não havia encontrado nenhum autor que me despertasse no mesmo caminho até que um amigo me presenteou com “Eu ouviria as piores notícias dos seus lindos lábios[bb]” de Marçal Aquino[bb]. O livro conta a história de Cauby um fotógrafo de 40 anos que vai parar em uma cidade de garimpo do Pará e acaba vivendo um romance clandestino com uma mulher misteriosa, sedutora e problemática chamada Lavínia. Uma trama exótica da qual duvidei a princípio, confesso. Mas logo nas primeiras páginas me apaixonei. Li o livro em quase 24 horas e levei dois dias pra ler as últimas páginas. Não queria que acabasse. Uma narrativa seca e indireta, só que se trata de uma história de amor. Uma contradição que não se contradiz.

(livro fam%EDlias terrivelmente felizes) [bb]

Agora estou lendo meu segundo livro dele, uma coletânea de contos intitulado “Famílias terrivelmente felizes[bb]”. Ando igualmente apaixonada. Segue um trecho:

“Poucas vezes me senti tão confortável no mundo. E, no entanto, sofria, por antecipação, o grande vazio que seria o resto da minha existência sem ela.

O que acontece é que, quando estou com você, eu me perdôo por todas as lutas que a vida venceu por pontos, e me esqueço completamente que gente como eu, no fim, acaba saindo mais cedo de bares, de brigas e de amores para não pagar a conta. Isso eu poderia ter dito a ela, mas não disse.

Talvez por saber que era o fim, e a gente nunca se comporta mesmo muito bem nos finais; ou talvez por impotência, desamparo, angústia; e também por covardia, não há vergonha alguma em admitir; talvez por tudo isso, e à falta de um nome adequado para a sensação de impotência que me esmagava, o fato é que desabei. Agarrado ao corpo ainda trepidante de Lavínia, logo depois de fazê-la gritar ao ponto de me preocupar com o sono do gerente lá fora, caí num choro convulsivo. Chorei de soluçar e de franzir o rosto e fazer caretas, sem nenhum pudor (existe algo mais despudorado do que um homem nu chorando?, e mais patético). Lavínia beijou meus cabelos, afagou-os, tocou as feridas em meu braço. Disse que o veneno ainda devia estar fazendo efeito no meu sangue. Talvez tivesse razão.”

(Eu ouviria as piores notícias de seus lindos lábios – Marçal Aquino[bb], p. 155).

p.s.: Marçal Aquino[bb] é também roteirista de cinema. Em breve, um de seus livros, “Cabeça a prêmio[bb]“, deve ganhar as telas.

V, a vingança

August 3rd, 2008

Os livros – ou gibis, no caso – têm diversas camadas de leituras. “Como uma cebola”, diria o Shrek, mas com cheiro melhor. Às vezes mesmo uma história direta e plana tem, pelo menos, duas leituras: a do herói e a do vilão. Quando o diálogo entre roteiro e arte (paginação, ilustração, balonagem, onomatopéias, etc.) são melhor elaborados, os gibis ganham um outro nível de leitura, dando razão ao termo Arte Seqüencial a eles.

Até mesmo quando tratam de coisas “frívolas” como homens de collant que espancam sub-repticiamente outros homens de collant. Batman – Ano Um, de Frank Miller e David Mazzucchelli, por exemplo, é uma obra-prima desse tipo de diálogo. Onde não apenas a história da origem do Homem-morcego é magistralmente (re-)contada, como é acrescida de novas informações e de um visual ainda mais soturno e realista.

Batman #407 - Year One - Frank Miller and David Mazzucchelli

Batman #407 - Year One - Frank Miller and David Mazzucchelli

[bb]

Frank Miller, antes de se consagrar como roteirista, era (e é) um excelente ilustrador e quadrinista. Os trabalhos que realizou em Ronim e Batman – o Cavaleiro das Trevas o colocaram na prateleira dos melhores autores de quadrinhos de todos os tempos. David Mazzucchelli era ilustrador da Marvel Comics e trabalhou com Miller na série Born Again (Renascendo), do gibi mensal do Demolidor antes de enveredar pelo quadrinho independente e experimental.

Digo isso para ilustrar que, nas mãos de gente talentosa, “menino conhece menina” vira uma história e tanto, que dirá um personagem complexo e conturbado como Bruce Wayne. Mas o tema desse texto de hoje é uma outra obra-prima dos quadrinhos, curiosamente também escrita nos anos 80.

Com o buzz do filme Watchmen, baseado na obra de Alan Moore, os holofotes se viraram para essa série e – talvez, talvez – encobrindo o que é a melhor obra do autor inglês. Não entro no mérito da qualidade da história dos vigilantes fantasiados e do deus ex-machina azul, tampouco da do filme que sequer estreou, mas vale sempre a pena relembrar que V de Vingança, quadrinizado por David Lloyd, além de ser uma das melhores histórias em quadrinhos de todos os tempos, é também um excelente tratado sobre liberdade, anarquismo e sociedade da informação.

V for Vendetta, Alan Moore and David Lloyd

V for Vendetta, Alan Moore and David Lloyd

[bb]

Foi escrito em 1981 e relançado – em cores – em 1988. O próprio Alan Moore disse que é uma obra “politicamente imatura” mas que previa com alguma precisão os acontecimentos à época de sua criação. Na verdade, ele errou fragorosamente algumas coisas – pra o bem de todos – mas acertou em cheio nas questões focaultanianas de controle e de manipulação da informação. Acertou também na face da destruição, mas errou na intenção de quem carrega essa face.

O filme, de 2006, conta apenas uma das possíveis histórias do gibi, mas não faz feio. Já fizeram pior e com histórias “mais fáceis”, como a Liga dos Cavalheiros Extraordinários.

V for Vendetta, the movie

V for Vendetta, the movie

[bb]

Quando caiu pela primeira vez em minhas mãos, eu tinha exatamente dezessete anos. Um amigo comprou os gibis por um distribuidor novo que – novidade! novidade! – trazia os quadrinhos só uns dois meses depois que fora lançado nos EUA. Ou seja: líamos em inglês uns dois anos antes do pessoal que tinha de esperar a edição da Editora Abril. Hoje em dia…

De lá para cá muita coisa mudou. Acho que até mais que nos vinte anos anteriores. Internet, celular, lapetopes, aquecimento global, blogues, economia da informação e muito, mas muito mais. Por isso a minha experiência com esse gibi é uma sensação extremamente misturada. Até hoje não consigo deixar de folhear as páginas do gibi sem me remeter a um momento quando apenas observávamos o esboço do mundo que está, hoje, se apresentando para nós.

A menina que roubou um leitor

July 19th, 2008

Dos livros que têm história além da que está contada nas páginas, “A menina que roubava livros[bb], de Markus Zusak, tem uma história curta e bem simples.

a menina que roubava livros, de markus zusak
a menina que roubava livros, de markus zusak

Comprei-o – pela primeira vez – na volta da minha viagem de volta do Rio de Janeiro, onde eu tinha passado o feriado de ano novo. Havia terminado com a namorada de então e andava meio cabisbaixo. É sempre ruim quando as coisas acabam. Parece que fica um gosto de chumbo em tudo que provamos e um cheiro de derrota meio que rodeia as coisas que fazemos.

Comprei o livro após ver um post no blog da querida Mariana Newlands – nem deve mais se lembrar de mim da faculdade – cujo projeto gráfico ficou maravilhoso. Como sempre. Confesso que tinha um preconceito quanto ao livro, pois ele fora tão badalado quanto O caçador de pipas[bb] – o qual detestei – e achei que fosse da mesma safra, do mesmo saco.

Ledo engano.

Comprei-o num impulso, da mesma maneira que os livros bons me chegam. Comprei-o sem pensar duas vezes e ele ficou na pilha, esperando a sua vez. Mal sabia que iria se perder em uma história sórdida que envolvia chope, batatas com alecrim e alho e um papo sobre o povo da internet. Ah! E uma loira de 1,80m.

Uns meses depois dessa minha volta, marquei um chope com Lúcia Freitas, num daqueles encontros que foram adiados uma eternidade e cimentam uma amizade que dura(rá) outra eternidade. Levei o livro para fazer hora – costumo chegar muito adiantado nos lugares quando não estou fazendo porcaria alguma em casa – e fiquei meio apreensivo em parar a leitura quando a amiga chegou. O bichinho sobreviveu aos chopes derramados na Lanchonete da Cidade (ali, onde a Alameda Tietê encontra a Rua Augusta) mas acabei esquecendo-o com ela.

Obviamente nunca me organizei o suficiente para resgatá-lo de tal cativeiro e, hoje, oficializo que ele tem uma nova dona.

Mês passado resolvi que iria comprar uma leva nova de livros e o encontrei num bom preço. Comprei-o pela segunda vez e, decidido, comecei a lê-lo no mesmo dia. O resultado é que tive o coração roubado pela pequena órfã, Liesel Meminger, amante das letras, ladra de altíssima categoria e habilidade e o universo da pequena Molching, pequena cidade perto de Munique, durante a Segunda Grande Guerra Mundial.

Não vou discorrer aqui sobre as qualidades do livro, já que o futuro leitor poderá encontrar diversas resenhas melhores que as minhas na internet, mas já aviso que a narrativa não-linear do romance é feita de uma forma bastante didática, não atrapalhando o leitor menos acostumado aos textos experimentais.

É um livro piegas, no melhor sentido da coisa, que apela às emoções mais sinceras e verdadeiras.  AMO.

Um pássaro e o meu primeiro rascunho de liberdade

July 7th, 2008

Como disse antes, alguns livros têm histórias que começam antes da primeira página escrita. Fernão Capelo Gaivota, de Richard Bach, é um dos livros que me acompanham em diversas “encarnações”.

Capa de Fernão Capelo Gaivota, de Richard Back

Ganhei a primeira edição num “presente duplo”. Minha mãe tinha uma colega de trabalho alemã que deu para nós, de aniversário, dois livros: Fausto, de Goethe, e Fernão Capelo Gaivota. A anedota dessa história era o chiste de minha mãe que disse à amiga que eu iria preferir o Fausto ao Fernão. A amiga que se chamava Isabella, se eu não me engano, disse que era possível, mas que o Fernão era mais “eu” que o Fausto. Ainda hoje, dezenas de anos depois, gosto de imaginar a cena. Ela tinha razão. Eu tinha onze anos e sabia que não poderia ser piloto de avião. Estava aprendendo a ler – de verdade – os livros que releria por mais uma década.

Obviamente tomei o Fausto de minha mãe e o devorei em dois dias. Entendi metade, gostei menos. Só a figura do Mefisto é que me cativou. Achei triste uma criatura que gastava tanta energia para tão pouco resultado. Depois, relendo uma das inúmeras versões do próprio Goethe, me compadeci menos do senhor do Mal e um tico mais do próprio Fausto.

Ainda tinha esse livro – o mesmo, do presente – até o início desse ano, quando a família se mudou de Copacabana para o Leblon. Na mudança, vários dos meus livros foram pro sebo. Ele e o sexto – ou sétimo – exemplar de Fernão Capelo Gaivota que eu já comprei em minha vida.

Tergiverso um pouco por conta da força que o romance alemão tem sobre o da gaivota americana. É injusto colocar os dois na mesma berlinda, já que o primeiro tem o arcabouço dos séculos para lhe dar respaldo e é, de centenas de maneiras diferentes, maior, melhor e mais humano que o livrinho dos passarinhos.

Porém, para o menino de onze anos que começava a engatinhar nos subtextos das histórias o conto da gaivota rebelde – e pacífica – era arrebatador. Primeiro por seu inconformismo, depois pela vontade de querer sempre o “mais” em si mesmo, por fim a vontade de compartilhar com o próximo. Isso é tão nerd – no sentido do século vinte e um – que hoje ainda me impressiona.

À época eu queria ser um cientista. Um biólogo. Um engenheiro genético, para ser mais preciso. Estamos falando de mil novecentos e oitenta e bem poucos, no milênio passado, onde a engenharia genética nem era assunto de ficção científica pipoca. Muito menos realidade cotidiana, nas próprias pipocas. E era definitivamente bem diferente dos meus amigos que amavam futebol, andar de bicicleta no calçadão da praia e pegar onda. Essa diferença só iria acentuar mais e mais até desaparecer por completo por conta dos anos corridos e das baias das empresas. Afinal, aos quarenta ninguém é tão diferente assim um do outro.

A metáfora do bando de gaivotas que só pensam em comer e voar e se abrigar da noite não é boa, nem se sustenta por muito tempo – gaivotas são espertas e são bem vis, atacam outras aves, e se adaptam bem a quaisquer situações desfavoráveis – mas servia pro meu imaginário, à época. O pano de fundo pseudo-filosófico também não ajuda muito. O próprio Richard Bach escreveu bons textos antes de entrar na onda pré-new age. Biplano e Longe é um lugar que não existe são bons exemplos de coletânea de crônicas sensíveis e honestas. E o lance de morte-e-ressurreição me ofende até hoje. Clichês deveriam ir para a Disney Vault periodicamente.

Mas o trinômio Aprender, Destacar, Compartilhar é muito forte para ser soterrado por isso. Melhor que isso tudo, a mensagem de liberdade – conquistada a duras penas – e o direito de ser diferente entre as legiões de iguais me calam fundo até hoje. Identificação imediata, aliás.

Dei esse livro de presente para uma série de pessoas queridas no passar dos anos. Nunca recebi um bom retorno sobre ele. No máximo: “ahn… gostei…” seguido de um pé na bunda. Agora tento novamente com minha filha. Quem sabe eu consiga despertar um sentimento mais universal naquela pequena criatura consumista?

O melhor livro que li na minha vida

June 24th, 2008

Alguns livros contam histórias que comovem, outros que inspiram, outros que apenas se perdem na lembrança ao cerrar a última página. Eles fazem-nos crescer a cada parágrafo e sentimos que, quando termina a contagem das páginas, algo mudou em nós. Na verdade, eles proporcionam um religare literário com a humanidade. Despertam um sentimento de pertencimento único.

Esses são os livros que considero especiais.

Clássicos, por excelência.

Capa de Extremamente alto, incrivelmente perto, de Johnatan Safran Foer

E existem outros livros que carregam histórias consigo, histórias que não estão em suas páginas mas que são contadas por causa delas. Uma enciclopédia, um gibi, um jornal que desencadeia um romance curto, um conto longo, um casamento ou uma separação. Poucos são ambas as coisas e eu tive a sorte de ter três dessas conjunções – até agora – na minha vida.
Esse é o primeiro deles.

Não vou ficar desfiando a trama de Oskar e da busca dele por uma chave achada dentro de um jarro e da família partida que se reencontra. Não. Deixo ao leitor a recomendação de um dos melhores livros escritos atualmente e um dos melhores que já li na minha vida. Sobre esse livro, eu prefiro contar as rápidas histórias que vivi com ele.

Estava em Sampa, sem carinho ou afeto e recebo uma mensagem no gtalk. “Zander, compra o Extremamente Alto, do Jonathan Safran Foer. Agora!” Fi-lo. E passei uma semana (e meia) me emocionando em ônibus, chegando às raias das lágrimas corridas enquanto o busum sacolejava da Paulista até a Berrini.

Depois, encantado com uma moça de nariz aquilino, comprei um exemplar para ela. Falei das belezas, dos encantamentos, da noite, da torta holandesa da Cantina Donn’Ana, das vontades, dos beijos, dos prazeres no inverno pífio do Rio de Janeiro. Em troca recebi uma viagem de volta para São Paulo com mais uma história meio-contada.

Numa outra feita, vi que uma amiga de uma amiga lia o mesmo livro que eu. Não resisti e comentei com ela o que tinha achado. Descobrimo-nos amigos e eu fui no seu aniversário seis meses depois, na Lapa. De amiga de amiga que lia o livro que era meu amigo indicado por um amigo, virou uma amiga querida.

Na última, lembrei que nunca escrevera sobre ele. Comprei-o mais uma vez, já que o meu primeiro exemplar ficou de presente para outra moça que me comentou do mesmo essa semana. Não o lera ainda, mas iria fazê-lo em breve. Sei, sei. Esse último ficará para uma pessinhazinha que já ganhou o meu coração.

Hoje, ele hoje olha para mim da minha mesa e eu sei que tem um amigo ali dentro, de nove anos, chamado Oskar.